domingo, 4 de agosto de 2019

Léo, o cadeirante (*)


(*)Ana Cláudia V. S. Lucas
 Crônica escrita em Setembro de 2011

Aos 23 anos o estudante Léo tenta levar a vida numa boa, mas há dias em que desanima.

Ontem, por exemplo, passou por dificuldades: sentiu na pele que a cidade (o poder público) não se preocupa com ele. O problema surgiu quando, em via pública, enfrentando calçadas irregulares e esburacadas, precisou atravessar a rua, na esquina da Félix da Cunha e Sete de Setembro.  

Ali há uma rampa de acesso, mas Léo não conseguiu usá-la por causa dos buracos existentes neste ponto.  A cadeira de rodas poderia virar com ele junto.

Para sorte alguém o ajudou – mas ele, mesmo agradecido, se aborreceu com isso, porque gostaria de ter autonomia e cruzar a esquina de forma independente.

Léo vai me fazendo um relato.

Disse-me que com frequência é obrigado a andar no 'meio da rua'. Quando isso acontece, sempre aparece alguém para chamar-lhe atenção sobre os perigos do seu comportamento. Ele sabe que é arriscado. "Mas as calçadas em Pelotas - diz - não foram feitas para os cadeirantes". Sorri  e completa: "Acho que tampouco para os que não são".

Imagem disponível na Web
"Eu tenho uma colega de aula deficiente visual. Nós nos conhecemos no início desse ano. Lembro bem. Ela pediu para me conhecer melhor. Eu achei legal passar por essa experiência: ela me olhou "com as mãos". Tocaram-me demoradamente no rosto, cabelos. E foi descendo pelo meu pescoço. 

Demoraram nos meus ombros, braços e mãos. Depois, mesmo sem jeito, pediu para ‘olhar’ minhas pernas.  Descobriu – de forma mais intensa – minha paraplegia. Tornamo-nos amigos desde então. Por sinal, caminhando por uma rua de Pelotas, com auxílio da bengala, ela tropeçou num ladrilho solto, caiu e teve um braço fraturado. Fazer o que,, disse Léo.

Ouvi os relatos do jovem em silêncio, e decidi sair às ruas para os registros. Ele tem razão. As condições de mobilidade e acessibilidade em Pelotas são realmente precárias para quem necessita de condições especiais, como rampas, pisos táteis, semáforos sonoros etc. De modo geral falta quase tudo em termos de acessibilidade na maioria das vias, e no transporte público também.   Essa precariedade impede que as pessoas transitem de forma digna, tira-lhes a liberdade.

Embora tenham assegurado por lei o direito de utilizarem com segurança e autonomia os espaços - mobiliários e equipamento urbanos, edificações e transporte - muito ainda é sonegado aos cidadãos, sobretudo às pessoas portadoras de deficiências ou com mobilidade reduzida.

Uma cidade que quer fazer crer que é modelo, dirigida por quem se considera empreendedor, não pode permitir que seus gestores dêem  as  costas para a realidade dos cadeirantes e de outras pessoas com deficiências.  Não importa o tamanho da cidade, nem mesmo suas condições financeiras, porque isso depende, mesmo, dos seus administradores, de boa vontade e da definição de prioridade.

Pelotas devia ser diferente para o ’Léo’.

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